QUI - A INCRÍVEL QUÍMICA DO MUNDO
INTRODUÇÃO DO LIVRO “BARBIES, BAMBOLÊS E BOLHAS DE BILHAR”
De Joe Scwarcz
A busca pela química certa
Quando tinha mais ou menos dez anos, fui convidado para uma festa
de aniversário. Aquele foi um acontecimento que mudou minha vida. A
festa era animada por um mágico adolescente, com o repertório habitual.
Todos os truques eram esquecíveis – exceto um. Em certo momento da
pouco fascinante atuação, o entediado prestidigitador pegou três cordas
de cores diferentes e atou-as umas às outras. Depois enrolou-as nas
mãos e pegou no bolso uma invisível “substância química mágica” que
fingiu derramar sobre as cordas. Acreditem ou não, quando desenrolou
as cordas, os nós haviam desaparecido, e os três segmentos tinham se
fundido em uma única corda longa!
Acho que, mesmo naquela idade, entendi que havia presenciado um
ato de prestidigitação, e não uma mágica química. Mas lembro de haver
perguntado a mim mesmo por que o mago escolhera nos impressionar
com “produtos químicos”, em lugar do costumeiro abracadabra. Eu nada
sabia sobre química naquela época e não tinha ideia do que era um produto
químico. Por que ele havia associado produtos químicos e mágica?
Decidi descobrir. E sempre serei agradecido por isso. Fiquei encantado
com a magia da química desde aquela ditosa festa de aniversário.
Na biblioteca do meu bairro havia vários livros sobre mágica
química. Em semanas, eu havia aprendido como transformar água em
“vinho”, preparar tintas invisíveis e fazer velas que acendiam sozinhas.
Era divertido. Na verdade, ainda gosto de entreter crianças de todas as
idades com shows de mágica química. Mas então, enquanto eu lia cada
vez mais, descobri que a magia real da química estava em toda parte. Nada
tinha a ver com mudar as cores de uma solução ou produzir vapores e
ruídos. A verdadeira magia encontrava-se na capacidade que a química tem de
desvendar os mistérios da vida.
Para mim, a compreensão das moléculas e suas reações desmistificam os
mecanismos do mundo e, talvez, de modo ainda mais significativo, demonstram
o elo íntimo entre a qualidade da vida diária e o conhecimento químico.
O perfume de uma rosa, o gosto de uma maçã, a cor de uma cenoura, o ferrão
de uma abelha, o incômodo de uma alergia, a perda do brilho da prata, os
prazeres do chocolate e os segredos do amor, todos revelam seus mistérios
a uma compreensão do comportamento molecular. Ao me aprofundar nos
conhecimentos da química, descobri os efeitos dos medicamentos, o papel
dos cosméticos, os princípios da nutrição, os riscos das toxinas, a eficácia dos
agentes de limpeza, os perigos dos poluentes e os horrores da guerra química.
Ficou claro para mim que não se pode navegar adequadamente pela vida sem
uma compreensão da química, porque basicamente nós todos somos químicos
praticantes. Fazemos café, cozinhamos, pintamos, lavamos, comemos, fazemos
sexo. Somos constantemente desafiados quimicamente. Temos de tomar decisões
sobre qual pasta de dentes, que xampu, que detergente e que suplemento
vitamínico usar. Somos obrigados, portanto, a não temer os produtos químicos
e aprender sobre eles.
Mas até essa perspectiva atemoriza muita gente. Pensem na palavra
“química”. O que vem à cabeça? Difícil? Chato? Perigoso? Poluente? Cancerígeno?
Explosivo? Malcheiroso?Lamentavelmente, quando faço essa pergunta,
obtenho todas essas respostas. A associação é quase sempre desfavorável. De
vez em quando alguém murmura sem convicção: “bico de Bunsen” ou “tabela
periódica”, mas os adjetivos “interessante”, “excitante”, “fantástico” quase nunca
são ouvidos. Em uma recente pesquisa com estudantes a ponto de embarcar
no primeiro curso de química em uma grande universidade norte-americana,
um deles antecipou que a experiência seria “anti-septicamente arrogante”. Não
estou bem certo do que isso significa, mas de alguma forma sei que ele não
estava pensando em uma experiência agradável.
Afirmo que um pequeno mergulho intelectual no vasto oceano da química
pode ser não somente útil, mas também prazeroso. Não tentei escrever um livro
didático de química; existem muitos excelentes por aí. Nem tentei empenhar me
em um tratamento compreensivo de medicamentos, aditivos alimentícios,
cosméticos ou agentes de limpeza, apesar de esperar que você também encontre
muitas informações úteis sobre esses temas aqui. Na verdade, tentei construir
uma estrutura para um pensamento racional e científico por meio de uma série
de olhares divertidos sobre os detalhes particulares do mundo da ciência.
Para mim, a expressão “a química certa” tem duas conotações. A óbvia,
que se refere a saber alguma coisa sobre como é esperável que as moléculas se
comportem. Mas também a considero a metáfora de uma boa mistura. Casais
e equipes atléticas podem ter a química certa, e o mesmo acontece com os
conceitos e ideias. Espero que este livro reflita as duas noções– e que, depois
de se lançarem comigo em algumas das minhas travessuras químicas, vocês
entendam por que estou tão feliz de ter sido convidado para aquela festa de
aniversário há tantos anos, quando um mago adolescente e sua “magia química”
me atraíram para a busca da “química certa”.
Evangelistas, cientistas loucos e fezes de grilo
Uma colega esperava um ônibus depois de participar de uma reunião da
Canadian Chemical Society. Notou que uma senhora a seu lado olhava com
suspeita o crachá que ela ainda usava. Finalmente, incapaz de se controlar, a
mulher explodiu: “Não posso acreditar que vocês estejam defendendo uma
sociedade química.”
Obviamente, para essa preocupada senhora, a palavra “química” era sinônimo
de mal. “Química” significava maconha, cocaína ou heroína. Ela podia
até ter lembrado do ex-presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, fazendo
campanha contra uma “sociedade química”. Nossos jornais também têm parte
da culpa pela perceptível notoriedade dos produtos químicos quando unem
a palavra “substância química” a adjetivos pejorativos. “Substância química
perigosa”, “substância química venenosa”, “substância química carcinogênica”,
“substância química tóxica” são expressões frequentemente encontradas na
imprensa. Pode parecer que “produtos químicos úteis”, “produtos químicos
seguros” e “produtos químicos benéficos” não existem. É hora de corrigir isso.
Comecemos examinando essas enigmáticas substâncias químicas.
Os grilos cricrilavam alegremente em suas gaiolas numa fazenda da Geórgia.
Não sabiam que seu destino era serem empalados em anzóis de pesca ou transformados
em comida para animais de estimação. Por ora, eles tinham muito
para comer; a vida era boa. Assim, eles comiam, comiam, e depois se aliviavam
poderosamente. “Em vez de jogar o excremento na terra, por que não o vender
como fertilizante?”, pensou o fazendeiro empreendedor. Por que não? Desse
modo, o excremento foi bem empacotado e recebeu o nome honesto e científico de “cc-84” (de cricket-crap, “fezes de grilo”). O problema é que não vendia.
“Soa químico demais”, diziam as pessoas, não parece um “fertilizante natural,
orgânico.” “Mudemos o nome”, pensou o inventivo fazendeiro. “Digamos às
pessoas como o produto realmente é natural.” E assim, chamado de Kricket
Krap, o excremento de dois bilhões de grilos logo se disseminava pelas lojas e
em encomendas pelo correio.
Robert Tilton era um dos mais populares televangelistas dos Estados Unidos
(pelo menos até que o programa de televisão Prime Time Live acabou com ele).
O reverendo Tilton rezava por qualquer pessoa que enviasse um pedido por
escrito, acompanhado de uma doação para uma de suas obras de caridade. O
problema era que a maioria das obras de caridade não existia de fato. O rebanho
de Tilton na verdade financiava casas luxuosas, uma lancha caríssima e até
uma cirurgia plástica para o pregador. O reverendo não pôde negar as provas,
mas deu uma desculpa interessante. Ele lera milhares de pedidos de orações;
seu comportamento irracional podia ser atribuído, sem dúvida, às substâncias
químicas da tinta em que foram impressos. A cirurgia plástica também foi
necessária para corrigir o dano provocado em seu couro cabeludo por essas
substâncias químicas. Quanto à lancha de 130 mil dólares, ela era necessária
para ajudar Tilton a relaxar depois do estresse químico que sofrera.
Uma propaganda de TV que passava tarde da noite era muito engraçada. Seu
objetivo era vender um produto para cabelos chamado Rio, feito no Brasil,
composto inteiramente de ingredientes naturais que “alisariam seus cabelos
crespos sem a ajuda de substâncias químicas”. O apresentador então nos esclarecia
sobre como “Rio liberta você; ele não o deixa na servidão. Quando usa
substâncias químicas, você se torna cativo”. A meia hora de conversa mole nos
instava a sermos “quimicamente libertos” e terminava com um testemunho
entusiástico de uma cliente, que antes tivera cabelos crespos e agora os apresentava
bem penteados. Ela opinava: “Usar substâncias químicas é como uma
sentença de morte para seus cabelos.”
Essas histórias não estão relacionadas, mas têm um elemento comum. Cada
qual afirma que as substâncias químicas são coisas perigosas e devem ser evitadas
ou substituídas pelas “naturais” ou “orgânicas”. Cada qual também deixa claro
que não circula por aí o entendimento do fato de que as substâncias químicas
são os blocos de construção de toda matéria, que somente o vácuo pode ser
“quimicamente liberto”. Não reconhecem que algumas substâncias naturais são
altamente tóxicas, ou que a palavra “orgânica” é comumente utilizada fora de
seu contexto. Acima de tudo, não reconhecem o fato de que a engenhosidade
química, em menos de um século, transformou uma existência temível e cheia
de problemas em uma vida mais brilhante e promissora.
As substâncias químicas não são boas nem más. São apenas coisas – os
blocos de construção do mundo. Cabe a nós decidir como vamos usá-las. A
mesma substância que mata também pode curar. Considerem os seguintes
exemplos. Em 1943, bombardeiros alemães atacaram um comboio de navios
aliados ancorados em Bari, na Itália. Um navio carregava 100 toneladas de
gás mostarda, que vazou no porto de Bari. Em um mês, 83 dos homens que
tinham sido resgatados da água morreram. As amostras de sangue das vítimas
continham menos células brancas de sangue do que o normal. Já que essas
células estão entre as que se dividem mais rapidamente, uma ideia nasceu: o
gás mostarda poderia matar células cancerosas? Na verdade, o composto ainda
é usado no tratamento do sarcoma de Hodgkin.
A toxina botulínica, que pode ser letal até em microgramas, muitas vezes
é citada como exemplo de uma das mais poderosas toxinas naturais que se
conhecem. No entanto, ela vem sendo usada no tratamento do estrabismo e na
eliminação de rugas faciais. A amônia é empregada para fazer nitrato de amônia,
que pode ter utilidade como explosivo ou fertilizante. Utiliza-se o cloro como
gás venenoso, mas ele tem um papel alternativo como desinfetante da água,
protegendo, todo ano, milhões de pessoas de febre tifoide, cólera e difteria.
A morfina, produto natural encontrado no extrato de papoula conhecido
como ópio, arruinou incontáveis vidas pelo vício, mas seu efeito anestésico
também tornou mais suportáveis muitas vidas afligidas pela doença – temos
aí a mesma substância química usada de maneira diferente.Hoje os químicos
podem produzir derivados sintéticos da morfina que mantém os efeitos
anestésicos, eliminando as propriedades que induzem à euforia e que levam
ao vício. O “bom” foi realmente separado do “mau”, como no famoso conto
de Robert Louis Stevenson “O estranho caso do doutor Jekyll e mister Hyde”
(“O médico e o monstro”). O doutor Jekyll usa uma substância química para
separar o lado bom do lado maligno de sua personalidade. Na verdade, a
química pode ser chamada de ciência “o médico e o monstro”, porque pode
ser utilizada tanto para o bem quanto para o mal. A nitroglicerina empregada
para fazer bombas também pode abrir túneis sob montanhas ou ajudar a
curar doenças do coração. A energia nuclear pode destruir nosso mundo ou
livrar-nos da dependência do petróleo. Mas, assim como o único assassinato
cometido por mister Hyde atraiu mais atenções que toda a carreira do doutor
Jekyll salvando vidas de crianças, o lado negativo das substâncias químicas
recebe mais atenção que o positivo.
A química, para muitas pessoas, está ligada às tragédias de Minamata e
Bhopal, à chuva ácida, à bifenila policlorada (pcb), às dioxinas e ao lixo tóxico.
Dificilmente se pensa em aspirina, penicilina, insulina, náilon, lâmpadas elétricas,
livros, televisão ou até em roupa íntima – todos produtos da engenharia
química.
Alguma culpa disso recai, é claro, sobre os ombros da indústria química,
já que muitos eventos negativos e altamente divulgados associados à disciplina
podem ser atribuídos à negligência motivada pelo lucro. Mas a verdadeira culpada
é a falta de educação científica fundamental. As crianças não aprendem
química sufi ciente em nossas escolas elementares. Portanto, não é de admirar
que, para elas, a química represente as estranhas e desnorteantes gesticulações
de Beakman, no Mundo de Beakman, ou as tramas e intrigas do “cientista louco”
genérico visto em tantos desenhos animados. A química é toda composta de
líquidos borbulhantes, poções fumegantes e – é claro – explosões. A quem culpamos pela figura estereotipada do cientista louco? Essa imagem
ruim pode ter sido criada inadvertidamente por Mary Shelley. Seu romance
Frankenstein, inteligentemente construído, explora as consequências da ciência
imprudente e nos deixa com a mensagem de que mexer com a natureza pode
ter repercussões imprevistas. Mas existe uma história por trás dessa história.
“Eu juntei os instrumentos de vida à minha volta, de forma a poder infundir
uma centelha do ser na coisa sem vida que jaz a meus pés.” Com essas palavras,
Victor Frankenstein começa seu relato da aventura que aterrorizaria gerações
e gerações de leitores. Embora a clássica lenda de Mary Shelley, de 1818, seja
comumente considerada uma história de terror, é na verdade uma fantasia
consciente sobre as consequências da ciência que foi pelo mau caminho.
O que levou uma garota de 18 anos a escrever uma história tão sombria
e aterrorizante sobre a criação da vida? Trabalhos de ficção frequentemente
nascem de experiências da vida real, de modo que é interessante meditar sobre
que fatos reais podem ter criado o conceito de Frankenstein.
Primeiro, vamos deixar algumas coisas claras. O Frankenstein de Mary
Shelley é o criador, não o monstro. E ele não é médico nem “cientista louco”.
Victor Frankenstein é um estudante universitário que desde jovem era obcecado
com a ideia de descobrir os segredos do Céu e da Terra. Ele lê vorazmente
os trabalhos de grandes alquimistas, como Albertus Magnus e Paracelso, que
tentaram descobrir o segredo da eterna juventude. Fica fascinado com o poder
da eletricidade quando vê uma árvore ser partida ao meio por um raio.
A morte de sua mãe incita Victor a procurar ainda mais vigorosamente o
segredo da vida. Finalmente, depois de numerosas experiências fracassadas, ele
consegue dar vida à famosa criatura que montou com partes de corpos. Mary
Shelley não descreve os detalhes da criação; não existe menção a balões de vidro
borbulhantes ou a geradores elétricos. Tudo isso foi agregado pelos diretores
de cinema. E, bem diferente da encarnação de Boris Karloff, a criatura de
Frankenstein aprende a pensar e conversa de forma inteligente. Apenas quando
a sociedade o evita por sua aparência ele se torna violento. Victor Frankenstein
libera, sem querer, um flagelo sobre a sociedade.
Estava Mary Shelley preocupada com o que a ciência sem rédeas poderia
desencadear? Talvez. Ela presenciara uma demonstração pública de “galvanismo”
e ficara impressionada. Luigi Galvani tinha descoberto que, tocando a perna
amputada de uma rã com um instrumento metálico, ele fazia a perna tremer.
Interpretou esse fenômeno, equivocadamente, como “eletricidade animal”. Na
verdade, ele construíra acidentalmente uma bateria, com dois metais não similares
atuando como terminais, e o fluido do corpo da rã como eletrólito. Essa
demonstração causou grande impacto em Mary Shelley, e ela até sonhou que
testemunhava um recém-nascido ser trazido de volta à vida pela eletricidade.
Mary casou com Percy Bysshe Shelley, que havia abandonado mulher e
filhos por ela. Eles deixaram a Inglaterra por causa do escândalo que se seguiu
e fizeram uma excursão de barco pelo rio Reno, parando em um castelo que
se tornara atração turística pelas proezas de um antigo habitante chamado
Johan Conrad Dipple.
Dipple era um alquimista do século XVII que buscava incansavelmente
conhecer tudo (resíduos de Victor Frankenstein). Os rumores contavam que ele
até havia cavado túmulos e desenterrado cadáveres para realizar experimentos
macabros; ficava em especial intrigado em saber como funcionava o corpo
humano. Ele também criou o “óleo de Dipple”, que supostamente prolongava
a vida, e pode ter morrido provando suas próprias poções: encontrou a morte
espumando pela boca e tendo convulsões. O nome do castelo? Castelo de
Frankenstein.
Os Shelley também passaram por outra atração turística do Reno – um
museu que apresentava “autômatos”, engenhosas criaturas mecânicas criadas
por mestres artesãos. Embora se considerasse um grande desserviço rotulá-los
de brinquedos de corda, eles não passavam disso. Alguns sobrevivem até hoje
e ainda nos assombram pela semelhança com pessoas de verdade.
Assim, o palco estava armado. Mary ficara impressionada com o galvanismo.
Visitara o castelo de Frankenstein e aprendera sobre os esforços de Dipple
para criar vida. Os autômatos que vira pareciam gente de verdade. Não é de
admirar que, quando ela, o marido e dois amigos, presos em casa pelo rigoroso
clima suíço, começaram a escrever histórias de terror, Mary tenha criado seu
relato clássico sobre Frankenstein. Ao fazer isso, ela nos ensinou uma importante
lição: devemos pensar cuidadosamente sobre as consequências da ciência, quer
estejamos juntando partes de corpos, quer de moléculas.
Mas ela também preparou o cenário, inadvertidamente, para o recorrente
personagem do cientista louco de livros, filmes e televisão. Victor Frankenstein
não era um cientista louco e simplório, mas foi convertido nisso pelos vários
diretores de cinema que levaram a história à tela. E a imagem do louco egocêntrico,
intrometido impiedoso, rodeado de fios faiscantes e frascos borbulhantes
atormentou os cientistas desde então.
Jerry Lewis não ajudou muito com seu retrato do “professor aloprado”. O
personagem não era mau, mas certamente estabeleceu o duradouro estereótipo
do professor de química imbecil e desajeitado. E depois tivemos Fred MacMurray,
no filme O professor distraído, que inventou o fascinante e saltitante Flubber,
mas não conseguia se lembrar do que havia feito. O personagem de Christopher
Lloyd em De volta para o futuro cristalizou ainda mais a imagem do cientista
como um pateta, um pária social que se desviou do bom caminho.
Essa imagem ficou tão gravada em nosso tecido social que os produtores
de cinema e televisão sentem necessidade de recorrer a ela cada vez que é
preciso compor uma personagem cientista. Mesmo com a atual eclosão de
programas de ciência para crianças, não há como escapar dessas descrições
bizarras e nerds. A filosofia que prevalece parece acreditar que a ciência não
se pode firmar em seus próprios méritos – deve ser coberta de açúcar, humor
e música.
Bill Nye, o “Cara da Ciência” na televisão, posa para uma foto publicitária
atrás de uma montagem de balões de vidro e queimadores que seriam estranhos
em qualquer laboratório. Enquanto isso, Beakman, do Mundo de Beakman, arenga
e vocifera, mostrando seu humor afetado na frente de câmeras incongruentemente
inclinadas. O pandemônio só se aquieta durante suas consultas com o
professor I.M. Boring, claro, o cientista estereotipado, que parece louco, com
sotaque alemão. É de admirar que as crianças cresçam pensando que os cientistas
são, de modo geral, excêntricos? Deveria nos surpreender o fato de que uma
pesquisa australiana tenha revelado que crianças de 13 e 14 anos consideram os
cientistas “nerds e fracassados, que devotam suas vidas a causas sem esperança
e não são aceitos pela sociedade porque não querem?”
A verdade é que a ciência é estimulante por si mesma. Imaginação, charme
e encanto certamente realçam qualquer apresentação, mas as crianças não
devem ser atraídas para a ciência por professores com cabelos arrepiados ou
nerds com gravatas-borboleta. As cores esplêndidas de um arco-íris, um raio,
um foguete subindo pelos céus, um embrião transformando-se em criança, um
novo remédio contra o câncer, um plástico biodegradável – todas essas maravilhas
científicas deveriam provocar a imaginação. Não há necessidade de
ratos falantes gigantes ou de anfitriões desmiolados em aventais brancos com
protetores de bolso cheios de canetas para gerar entusiasmo.
Conversas diretas sobre substâncias químicas e seu papel em nossas vidas
podem captar o interesse de estudantes e relativizar as preocupações dos adultos.
Vamos dar-lhes uma chance. Você nunca mais olhará da mesma forma para
aquela propaganda de televisão sobre o laxante “que trabalha naturalmente,
não quimicamente”. Você também pode discutir com Meryl Streep, que, como
porta-voz da organização ambiental Natural Resources Defense Council,
declarou: “Meus avós não necessitavam de substâncias químicas para plantar
comida.” Ou Meryl Streep descende de uma linhagem de magos, ou ela não
entende que todos os fertilizantes são substâncias químicas, sejam eles os sintéticos
modernos ou o antigo Fezes de Grilo.
Um apelo pela alfabetização em química
Havia dois jovens no elevador da estação de rádio quando entrei, depois de terminar
uma gravação ao vivo. “Você é alguém?”, deixou escapar um deles. Enquanto
eu ponderava uma resposta apropriada para essa questão profundamente filosófica, seu amigo disparou: “Sim, ele é o cara que fala de química no rádio.” Essa
era a munição de que o filósofo precisava. “Ó, não, estamos presos no elevador
com um cientista”, brincou, antes de oferecer voluntariamente a informação de
que na escola havia tirado dois em química, e “mesmo assim colando”.
Eu já ouvira isso antes. Depois de dar muitas conferências, tenho sido
abordado por pessoas que, de alguma maneira, sentem necessidade de desafogar
suas mágoas e dizer-me, com alguma espécie de orgulho perverso, que
dormiram durante as aulas de ciências do ensino médio, ou que química fora
o único curso em que fracassaram. Tais comentários são emocionalmente
dolorosos para qualquer um que ensine ciências. Mas, pior que isso, eles
deixam implícito que o ensino de ciências pobre e sem imaginação pode ser
parcialmente responsável pelo aterrorizante grau de ignorância científica que
permeia nossa sociedade.
O analfabetismo científico não é assunto para brincadeiras. Certamente nos
divertimos com respostas bobas de provas, sugerindo que Benjamin Franklin
produziu eletricidade esfregando dois gatos um contra o outro, ou que podemos
identificar o monóxido de carbono porque ele tem um “cheiro inodoro”.
Mas a falta de familiaridade com os princípios científicos básicos pode causar
medos infundados e abrir a porta para charlatães.
Recentemente, ouvi de um cavalheiro que estava preocupado porque,
se dormisse com um cobertor elétrico, ficaria “cheio de radioatividade”; de
pessoas que haviam investido em uma empresa costa-riquenha que descobriu
um processo para transformar a areia vulcânica da praia em ouro; e de uma
senhora que se preocupava porque o dióxido de silício do seu adoçante artificial
lhe causaria câncer de mama.
As duas primeiras, eu espero, não precisam de nenhum comentário, mas
a questão do dióxido de silício apresenta um caso interessante. O dióxido de
silício é apenas areia. Aparentemente, a preocupada senhora confundira a
palavra silício com silicone, que é o nome de um tipo de borracha sintética
usada em implantes de seios. Apesar de alguns problemas terem sido causados
por implantes de silicone, o câncer de mama não é um deles. Aqui, um par de
suposições falsas levou a alguns medos muito reais, mas não realistas.
Em primeiro lugar, por que o dióxido de silício está no adoçante artificial?
Esses adoçantes são tão potentes que devemos usar muito pouca quantidade
deles. Estão misturados com substâncias tais como areia para tornar as embalagens
maiores e o manuseio mais fácil. Um pouco de dióxido de silício em nossa
dieta não é certamente um problema, mas, para os desinformados, ele representa
outro insulto ao corpo, outra “substância química impingida a nós”.
Ó, sim, aquelas notórias substâncias químicas! Existe alguma palavra mais
amplamente mal compreendida? Deixe-me dar mais alguns exemplos. O Frugal
Gourmet, autor de livros de cozinha de sucesso, afirma que “as pessoas não
querem perder tempo cozinhando e vão para restaurantes de fast-food, mas
elas perdem cinco anos de suas vidas por consumirem comida com substâncias
químicas”. Uma refeição sem substâncias químicas não seria boa coisa, a não ser
que você goste de comer vácuo.Em um programa de tv, uma aromaterapeuta
descreve sua busca por uma linha de cosméticos que seja “relativamente livre
de substâncias químicas”. Ela aspira a lucros; eu cheiro bobagem.
O absurdo químico chegou até as salas dos tribunais. No julgamento de
uma briga de gangues na Califórnia, o promotor descreveu “uma situação
muito parecida a quando o nitrogênio se encontra com a glicerina; era certo
que ia haver uma explosão de violência”. Ele provavelmente baseava a afirmativa
em alguma vaga noção de que a nitroglicerina é um explosivo potente, mas
essa substância não é feita combinando nitrogênio e glicerina. Na verdade, a
glicerina encontra-se com o nitrogênio todo o tempo e bem pacificamente: o
próprio ar tem 80% de nitrogênio.
De forma um pouco mais séria, não muito tempo atrás, equipes de limpeza,
vestidas com trajes de descontaminação, desceram na pequena cidade
norte-americana de Texarkana para lidar com uma emergência tóxica causada
por um derramamento de mercúrio. O culpado não era alguma descuidada
companhia química – mas a ignorância química. Um casal de adolescentes havia
encontrado um lote de 20kg de mercúrio puro em uma fábrica de luz néon
abandonada e começou a divertir-se com a substância brilhante. Eles brincaram
com ela, distribuíram um pouco para seus amigos, derramaram no chão
de casa e da escola. Como resultado, oito casas tiveram de ser completamente
esvaziadas e seis estudantes terminaram no hospital, onde puderam contemplar
os perigos do mercúrio, riscos que deveriam ter aprendido nas aulas de
química do ensino médio.
Esse episódio do mercúrio é bastante assustador em termos daquilo que nos
conta sobre a educação científica. Mais terrível ainda é a história do jovem Nathan
Zohner, que ganhou o prêmio da Grande Feira de Ciências de Idaho: ele fez
com que 43 entre 50 visitantes assinassem uma petição para banir o monóxido
de di-hidrogênio, porque pode ser fatal se inalado, é um componente principal
da chuva ácida e pode ser encontrado em tumores de pacientes terminais de
câncer. Qual é essa horrível substância química? Água, claro (h2o).
Você já deve ter adivinhado que este é um apelo por mais e melhor educação
científica em todos os níveis. Temos problemas quando adolescentes
pesquisados revelam que consideram os cientistas “nerds e fracassados”. Temos
problemas quando uma revista aconselha seus leitores a tomar água frequentemente
porque “um terço da água é oxigênio, e bebendo-a você permanecerá
alerta”. Temos problemas quando é possível se formar no ensino médio sem
jamais ter feito um curso completo de química, física ou biologia.
Mas também há alguns sinais positivos. As feiras de ciência do ensino médio
estão florescendo. Algumas faculdades e universidades oferecem programas que
enfatizam a ciência aplicada de todos os dias em detrimento da teoria esotérica.
Talvez mais encorajador seja que nós educadores somos abençoados com uma
matéria-prima maravilhosa: muitos de nossos estudantes se mostram criativos,
pensantes e perceptivos quando guiados para ver a ciência como uma fascinante
e aplicável busca, e não como uma compilação de conceitos e fórmulas irrelevantes
e chatos. Existe uma inventividade lá fora para ser cultivada. Recentemente
encontrei um estudante, em uma feira de ciências, que havia desenvolvido uma
forma de pintar o assento da privada com uma substância química luminosa,
para que pudesse ser facilmente localizada no escuro. Suspeito que ele não
assinará petições para banir o monóxido de di-hidrogênio da Terra.